Tirar a carteira de motorista, entrar na faculdade e começar a pensar no futuro com mais seriedade. Essas são algumas das experiências que marcam a chegada dos 18 anos, uma fase que costuma ser celebrada pelos adolescentes. No entanto, junto com a maior sensação de autonomia vêm também as responsabilidades e cobranças.
Em meio ao conflito entre a pressa por mudanças e o medo do novo, psicólogos ouvidos pelo Metrópoles concordam que ter calma é essencial. É importante entender que completar os 18 anos é apenas o começo da trajetória adulta e muitos obstáculos ainda estão por vir — o que é totalmente normal.
Para a psicóloga Sara Figueiredo, especialista em saúde mental infantojuvenil, é fundamental reconhecer que não há um único roteiro para a vida adulta e que trajetórias não lineares fazem parte do desenvolvimento humano.
“É necessário destacar que existem múltiplas adolescências, atravessadas por classe social, raça, gênero, território e acesso a oportunidades. Ignorar essas diferenças reforça expectativas irreais e injustas”, diz a professora de psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB).
A fase marcada por tantas dúvidas e incertezas também pode ser explicada por fatores físicos. Aos 18 anos, o córtex pré-frontal ainda está passando por um período significativo de transição e desenvolvimento. Ele é responsável pelo planejamento, tomada de decisão e regulação emocional.
No meio disso tudo, ainda há a exigência social por escolhas definitivas, o que ao invés de ajudar, atrapalha ainda mais o desenvolvimento do jovem.
“Temos que desmistificar a ideia de que a vida adulta começa pronta. Ela se constrói em camadas, com ajustes — às vezes pequenos. Em alguns momentos mais intensos, há mudanças de rota e aprendizados, que se tornam para sempre contínuos”, aponta a psicóloga Flávia Marsola, do Hospital Brasília Águas Claras.
Sinais que indicam sofrimento emocional
- Isolamento persistente e desânimo intenso.
- Alterações de sono e apetite.
- Irritabilidade constante.
- Sentimento de vazio e desesperança em relação ao futuro.
- Autocrítica excessiva.
A qualquer sinal de sofrimento emocional, é importante buscar ajuda profissional, com o auxílio de psicólogos e, em alguns casos, psiquiatra.
Além de transição, fase é de experimentação
Muitos chegam ao início da fase adulta sem perceber que se trata de um período de experimentação. Nem sempre a primeira escolha de curso universitário será a certa, o primeiro emprego normalmente não vai ser o dos sonhos e a independência financeira só chegará anos depois.
“A comparação constante é amplificada com as redes sociais, que criam uma ilusão de linearidade. É como se todos estivessem avançando, menos você. Isso é extremamente adoecedor se o adolescente não tiver suporte pra entender que a vida real não funciona assim”, ressalta Flávia.
Família pode ajudar
Um dos principais pontos de apoio deve partir dos pais e familiares, adultos “mais experimentados” com os trajetos da vida. Conselhos são bem-vindos quando acompanham o suporte emocional.
Porém, alguns responsáveis confundem o papel e acabam se tornando controladores, invadindo a autonomia do jovem. Outros acabam desvalorizando falas ou atitudes apenas por ele ser “novo demais”. É necessário ter cuidado redobrado nessa fase.
“Falas comuns como “isso é coisa de adolescente”, “é só uma fase”, “quando crescer passa” ou “não sabe nada da vida” não ajudam. Essas narrativas invalidam a experiência subjetiva do jovem e o afastam do lugar de sujeito de sua própria história”, diz Sara.
Por isso, é essencial estar atento aos sinais e dar ao jovem a possibilidade de errar também. O suporte emocional nessas horas é importante para desenvolver valores e flexibilidade psicológica não só para o agora, mas também para o futuro.