Pesquisadores brasileiros testam uma nova forma de reabilitação de pacientes após acidente vascular cerebral (AVC), uma das principais causas de incapacidade no mundo.
O estudo, chamado Titan Trial, combina técnicas de neuromodulação cerebral não invasiva com fisioterapia focada em tarefas, com o objetivo de melhorar a recuperação funcional e reduzir sequelas que afetam diretamente o dia a dia dos pacientes.
O foco da pesquisa é a negligência espacial unilateral, uma condição comum após o AVC, especialmente quando a lesão ocorre no hemisfério direito do cérebro.
Nesse quadro, a pessoa passa a ignorar tudo o que está de um lado do espaço, geralmente o esquerdo — inclusive o próprio corpo. O paciente pode, por exemplo, comer apenas metade do prato, esbarrar em objetos ou esquecer de vestir um lado do corpo, mesmo sem ter perda de força ou de visão.
Segundo os pesquisadores, essa sequela compromete a autonomia e dificulta muito a reabilitação, mesmo quando outras funções motoras já foram recuperadas.
Nova abordagem no tratamento do AVC
O Titan Trial propõe uma combinação de duas técnicas de estimulação cerebral com sessões de fisioterapia. A primeira é a estimulação elétrica transcraniana por corrente contínua (ETCC), aplicada no hemisfério cerebral lesionado para estimular a atividade neural e favorecer a plasticidade do cérebro — ou seja, sua capacidade de se reorganizar após a lesão.
A segunda técnica é a estimulação magnética transcraniana do tipo theta burst, aplicada no hemisfério oposto ao lesionado. O objetivo é reduzir a hiperatividade desse lado do cérebro, que costuma ocorrer após o AVC e acaba atrapalhando a recuperação do hemisfério afetado.
Essas duas formas de neuromodulação são usadas junto com fisioterapia baseada em tarefas específicas, que estimula o paciente a usar ativamente as funções que precisam ser recuperadas.
De acordo com o neurologista Rodrigo Bazan, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB-Unesp) e coordenador do estudo, a proposta se apoia em resultados anteriores do grupo.
“Naquele estudo, que chamamos de Eletron Trial, mostramos que a estimulação elétrica anódica aplicada na região parietal direita favorece a plasticidade cerebral e reduz a negligência espacial”, disse Bazan á Agência Fapesp.
Por que combinar as técnicas
Após um AVC, é comum que o hemisfério cerebral lesionado fique menos ativo, enquanto o outro se torne hiperativo. Esse desequilíbrio entre os dois lados do cérebro dificulta a recuperação.
A ideia do Titan Trial é atuar nos dois hemisférios ao mesmo tempo: estimular o lado lesionado e diminuir a atividade excessiva do lado oposto. Com isso, os pesquisadores acreditam que o cérebro fica mais preparado para responder à fisioterapia, aumentando as chances de melhora funcional.
O Titan Trial é um estudo multicêntrico, com participação de instituições brasileiras como a Unesp de Botucatu, a Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), a Universidade de São Paulo (USP) e a Unicamp, além de centros especializados de diferentes regiões do país. A pesquisa também conta com colaboração internacional de cientistas do Canadá e da Austrália.
A previsão é recrutar ao menos 51 pacientes que passaram por um AVC isquêmico no hemisfério direito e apresentam negligência espacial unilateral, para continuar a pesquisa.
Próximos passos
Os participantes serão divididos em três grupos: um receberá a combinação completa das duas técnicas de neuromodulação, outro apenas a estimulação elétrica e o terceiro grupo receberá estimulação placebo. Todos passarão por fisioterapia.
As intervenções acontecerão ao longo de 15 sessões, com avaliações após três, seis e 12 meses. Os pesquisadores vão analisar se houve redução da negligência espacial, melhora da funcionalidade, maior independência e melhor qualidade de vida.
Causas incomuns que podem ser responsáveis pelo AVC em jovens:
- Dissecção arterial: lesão traumática em uma artéria que supre o cérebro, geralmente fruto de um golpe.
- Trombofilias: a gestação, as doenças genéticas e também as autoimunes podem levar à formação de trombos que, se chegarem ao cérebro, causam o AVC.
- Forame oval patente: uma má-formação fetal que cria um buraco no coração que mistura sangue arterial e venoso. Em geral, não causa problemas, mas pode estar associado a embolização.
- Vasculites: inflamação dos vasos cerebrais que possui causas diversas, incluindo doenças autoimunes, infecções, medicamentos e outras condições.
- Doenças genéticas que provocam AVC e outras alterações neurológicas ou de outros órgãos. São várias como a doença de Fabry, RCVL, mutação da COL4A1 e 2, Cadasil, Moyamoya, etc.
As técnicas de neuromodulação usadas no estudo são consideradas seguras e já são aplicadas em outras condições, como depressão, dor crônica e distúrbios motores. Os efeitos colaterais costumam ser leves, como uma sensação de formigamento ou pressão no couro cabeludo.
Para a fisioterapeuta Luana Aparecida Miranda Bonome, doutoranda da FMB-Unesp e integrante da equipe, o principal diferencial do estudo está na combinação das abordagens. “Não adianta abrir a janela da plasticidade cerebral e não aproveitá-la com uma intervenção funcional”, afirma.
Se os resultados forem positivos, os pesquisadores esperam que a técnica possa ser incorporada futuramente à rotina de reabilitação do Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando as possibilidades de recuperação para pacientes que convivem com sequelas do AVC.










