Começar o ano com novas metas costuma vir acompanhado de promessas ligadas à saúde, ao corpo e ao bem-estar. É nesse contexto que cresce, também no Brasil, a adesão ao chamado Dry January — ou “Janeiro seco” — um desafio pessoal que propõe passar todo o mês sem consumir bebidas alcoólicas.
A ideia não é apenas “ficar sem beber”, mas observar como o corpo e a mente reagem à pausa e usar esse período como um teste para hábitos mais saudáveis ao longo do ano.
Segundo a nutricionista Carla Virginia, do Grupo Chavantes, mesmo quem não bebe todos os dias pode sentir efeitos importantes ao suspender o álcool por algumas semanas. Isso acontece porque o etanol interfere diretamente no metabolismo e no aproveitamento de nutrientes essenciais.
“O álcool prejudica tanto a absorção intestinal quanto o armazenamento e a ativação de vitaminas e minerais no fígado”, explica.
Entre os mais afetados estão as vitaminas do complexo B, ligadas à energia, ao sistema nervoso e ao humor; o magnésio, importante para relaxamento e sono; o zinco, essencial para a imunidade; além das vitaminas A e D e do cálcio, fundamentais para a saúde da pele e dos ossos.
O que muda no corpo nas primeiras semanas sem álcool
Nas primeiras semanas sem bebida, os sinais de melhora costumam aparecer rapidamente. De acordo com Carla, entre a primeira e a quarta semana, muitas pessoas relatam sono mais profundo e regular, menos inchaço abdominal, energia mais estável ao longo do dia, redução da vontade por açúcar, melhora da digestão e até da concentração e do humor.
“Isso ocorre porque o fígado deixa de priorizar a metabolização do álcool e volta a regular melhor a glicose, as gorduras e os hormônios”, afirma.
Um erro comum, segundo a especialista, é achar que beber apenas aos fins de semana não traz impactos. Em quantidades pequenas e ocasionais, de uma a duas doses, o efeito costuma ser discreto para pessoas saudáveis. O problema está no excesso concentrado.
“Guardar tudo para o fim de semana, com quatro, seis ou mais doses, pode prejudicar o sono por até dois dias, aumentar a inflamação, desregular o apetite e dificultar tanto o controle de peso quanto a recuperação muscular”, explica. Do ponto de vista nutricional, o padrão exagerado pesa mais do que a frequência isolada.
Existe bebida alcoólica menos prejudicial à saúde?
Segundo a especialista, não existe bebida “inofensiva”. Apesar de diferenças entre fermentadas e destiladas, o principal fator negativo é sempre o etanol. Vinhos têm pequenas quantidades de polifenóis e cervejas carregam mais carboidratos, com maior impacto glicêmico. Já os destilados costumam ter menos carboidratos, mas maior teor alcoólico, o que os torna mais agressivos ao fígado quando consumidos em excesso.
Para quem sente dificuldade em ficar sem beber, a alimentação pode ser uma aliada importante. A nutricionista explica que a vontade por álcool muitas vezes está ligada à hipoglicemia, ao estresse, a deficiências de magnésio ou vitaminas do complexo B e também ao hábito emocional.
Nesse cenário, refeições com boa oferta de proteínas, carboidratos complexos e alimentos ricos em magnésio ajudam a estabilizar a energia e reduzir o impulso. Chás calmantes e até água com gás, limão ou gengibre podem funcionar como substitutos do “ritual” da bebida.
Quando o desejo por álcool vai além do hábito social
O desafio do Janeiro seco não é apenas físico. A psicóloga Carolina Caetano, também do Grupo Chavantes, explica que, para muitas pessoas, o álcool está profundamente ligado a hábitos sociais e à forma de lidar com emoções.
“A bebida costuma ser associada a relaxamento, comemoração ou até à tentativa de esquecer problemas. Quando esse hábito é interrompido, surge um vazio que precisa ser preenchido por outra estratégia”, diz.
Além disso, o consumo é amplamente normalizado, o que dificulta perceber quando ele passa a ocupar um lugar central na regulação emocional. Segundo a psicóloga, o consumo geralmente começa como algo social, mas, com o tempo, pode se transformar em um recurso frequente para aliviar estresse, ansiedade e cansaço.
É por isso que um período sem beber ajuda a diferenciar um hábito pontual de uma relação que já merece atenção. “Se a pessoa sente muita dificuldade em manter a decisão, perde o controle ou apresenta sintomas como irritabilidade intensa, ansiedade ou desconforto físico, isso funciona como um sinal de alerta”, afirma.
Esses sintomas, aliás, são comuns nas primeiras semanas sem álcool. Carolina explica que o cérebro precisa se reajustar, já que o álcool atua como um regulador emocional.
Durante essa fase de adaptação, podem surgir alterações de humor, inquietação, ansiedade e dificuldades para dormir, especialmente quando havia consumo frequente ou excessivo. Isso não significa, necessariamente, um transtorno, mas indica a importância do autocuidado e, em alguns casos, da busca por orientação profissional.
Como lidar com festas e encontros sociais sem álcool
Para atravessar o mês sem frustração, a psicóloga orienta encarar o Janeiro seco não como privação, mas como uma experiência temporária de cuidado com a saúde.
Evitar, ao menos no início, ambientes que estimulem o consumo pode ajudar bastante. Em situações sociais inevitáveis, ter clareza da decisão e evitar explicações longas é fundamental.
“É importante não associar diversão e bons momentos exclusivamente ao álcool. É possível aproveitar encontros, festas e criar boas memórias estando sóbrio”, reforça.
Ao final do mês, mais do que cumprir um desafio, a proposta é sair com mais consciência sobre o próprio corpo, os limites e a relação com a bebida.
Para muita gente, o janeiro sem álcool se transforma no ponto de partida para escolhas mais equilibradas ao longo do ano — com menos culpa, mais informação e hábitos que realmente fazem sentido no dia a dia.