Ao descobrir que estava grávida pela terceira vez, a auxiliar de creche Karine Lisboa, então com 37 anos, procurou um especialista para fazer os exames comuns de pré-natal. Durante a primeira consulta, a ginecologista sugeriu à paciente fazer o exame preventivo para câncer de colo de útero, o papanicolau.
A mulher estranhou a indicação, já que acreditava que grávidas não costumavam fazer o procedimento. Durante a coleta do preventivo, porém, houve um sangramento intenso.
A médica encaminhou Karine para uma biópsia e, depois de quinze dias, veio o diagnóstico de câncer de colo de útero. “Eu só conseguia pensar que ia morrer e que meu filho ia nascer sem mãe”, lembra.
“Na maioria dos casos, a doença é assintomática nas fases iniciais. Por isso, a descoberta geralmente ocorre por acaso durante os exames de rotina do pré-natal, especificamente na coleta do papanicolau na primeira consulta”, ressalta a ginecologista Vitória Espíndola, da Maternidade Brasília e do Hospital Brasília.
Câncer de colo do útero
- O câncer de colo do útero, também chamado de câncer cervical, se desenvolve nas células da parte inferior do útero, chamada colo uterino.
- É o tumor ginecológico mais comum no Brasil e a causa mais comum de morte por câncer em mulheres na América Latina.
- A maioria dos casos está relacionada à infecção persistente pelo HPV (papilomavírus humano).
- Na fase inicial, a doença geralmente não apresenta sintomas.
- No entanto, à medida que o câncer progride, podem ocorrer sangramento vaginal irregular, corrimento com mau cheiro ou cor diferente, dor pélvica ou durante a relação sexual, entre outros sintomas.
Tratamento de câncer de útero durante a gestação
Em casos de câncer de útero durante a gestação, o tratamento precisa ser extremamente individualizado. No contexto de Karine, ela não poderia passar por uma cirurgia até que o bebê nascesse para não arriscar a vida do filho, já que o tumor estava muito próximo do útero.
“Em estágios mais avançados, pode ser necessário iniciar o tratamento já durante a gestação. Nesses casos, a quimioterapia pode ser indicada somente a partir do segundo trimestre”, explica a oncologista Gabrielle Scattolin, membro da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc).
A solução que os médicos encontraram para a auxiliar foi iniciar a quimioterapia ainda durante a gravidez, com uma abordagem bem adaptada para proteger o bebê. Ela fez dez sessões de quimioterapia com a dosagem reduzida.
O tratamento foi dividido em ciclos, intercalando semanas de aplicação e descanso. Mesmo com os cuidados, os efeitos colaterais foram difíceis. “Eu passava muito mal, tinha muitas náuseas, vômitos e fraqueza. Era muito difícil”, relata.
Nascimento de Daniel e a cirurgia de Karine
No momento do parto, os médicos aproveitaram a cesariana para fazer a retirada do útero (histerectomia). No caso de Karine, o procedimento foi necessário para conter o avanço do câncer.
O bebê, Daniel, nasceu perfeitamente saudável e sem nenhuma complicação. Depois do parto, a mulher fez mais quatro sessões de quimioterapia e 25 de radioterapia, que é proibida durante a gestação.
Cura do câncer e acompanhamento médico
Atualmente, Karine é considerada curada e segue em acompanhamento médico a cada seis meses. Daniel cresce saudável e sem qualquer sequela.
“Ele não teve nenhum problema. É uma criança forte, ativa e perfeita”, diz a mãe.
A auxiliar de creche faz questão de destacar que tudo começou com um exame preventivo simples, que estava atrasado. “Se aquele exame não tivesse sido feito, talvez eu não estivesse aqui hoje”, afirma.
O exame preventivo, conhecido como papanicolau, é fundamental para identificar mudanças nas células do colo do útero ainda nas fases iniciais, antes mesmo do surgimento dos sintomas.
Se for detectado cedo, o câncer de colo de útero tem chances altas de cura e pode ser tratado com procedimentos menos invasivos. A recomendação do Ministério da Saúde é que mulheres façam o exame regularmente, mesmo sem sinais da doença, já que a prevenção é a principal forma de evitar o avanço do câncer.



