Você já sentiu uma dorzinha no peito ou nó na garganta quando estava se despedindo de alguém importante? Mesmo quando o “adeus” já é algo esperado ou combinado, o cérebro não gosta de despedidas.
A sensação ruim é comum e acontece porque o cérebro interpreta a despedida como uma quebra de segurança, já que o órgão aprende a se organizar a partir de vínculos sociais.
“As despedidas causam sofrimento porque, muitas vezes, não estamos dando ‘tchau’ apenas para uma pessoa, mas para tudo o que ela representava: rotina, identidade, planos futuros e sensação de pertencimento”, explica o médico psiquiatra Gustavo Yamin Fernandes, do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo.
O cérebro não gosta de despedidas
Desde os primórdios, o cérebro humano se organiza através da criação de vínculos com as pessoas. Eles ajudam a criar previsibilidade, conforto e sensação de pertencimento a algo ou alguma coisa.
Por isso, quando alguém importante se afasta, o cérebro reage como se algo essencial estivesse faltando, mesmo que a pessoa saiba, racionalmente, que a despedida é necessária ou passageira.
Durante despedidas, o órgão ativa áreas diferentes ao mesmo tempo. Cada uma delas causa reações emocionais e físicas que podem surgir nesses momentos. As principais áreas que são ativadas são:
- Amígdala: fica mais ativa e aumenta sentimentos como tristeza, medo e ansiedade.
- Córtex cingulado anterior: está ligado à dor emocional e ajuda a explicar por que a despedida pode doer tanto quanto uma dor física.
- Ínsula: está associada a sensações de aperto no peito, nó na garganta e mal-estar.
- Hipocampo: resgata memórias e lembranças afetivas ligadas à pessoa, o que intensifica a tristeza da despedida.
- Córtex pré-frontal: tenta analisar a situação de forma racional, mas nem sempre consegue controlar a resposta emocional.
- Sistema de recompensa: reduz a liberação de substâncias de prazer e vínculo, o que contribui para a sensação de vazio e tristeza.
“Áreas onde são processadas a dor física também são ativadas durante a despedida. Por isso, a separação pode doer fisicamente no corpo, como uma pancada ou uma queimadura”, ressalta o médico neurologista Sérgio Jordy, da Rede D’or.
Memória e emoção caminham juntas
Um fator que conta na hora das despedidas é a memória afetiva. Se a pessoa vai embora, o cérebro entende que não só ela está indo, mas também tudo que esse indivíduo representa.
O movimento de resgatar memórias também pode acabar gerando pensamentos repetitivos e dificultar a concentração. Em alguns casos, a pessoa sente dificuldade para se engajar em atividades que antes eram prazerosas porque o cérebro está mais focado na ausência.
Em perdas significativas, como luto ou término de relações importantes, podem surgir alterações no humor, no sono e no apetite e, em alguns casos, evoluir para quadros de ansiedade ou depressão.

Como o cérebro “supera” uma despedida?
Apesar do sofrimento do começo, o cérebro tem capacidade de se adaptar a situações novas. Por isso, com o passar do tempo, as memórias não provocam mais reações tão intensas.
Apoio emocional, convivência com outras pessoas, sono de qualidade e cuidado com a saúde mental ajudam no processo — assim, aos poucos, o cérebro aprende a lidar com a falta e ressignifica o vínculo.