Aos 19 anos, a bailarina cearense Mirella Castro voltou a subir ao palco sem o medo que a acompanhou durante boa parte da adolescência. Por anos, cada salto e cada movimento mais exigente vinham acompanhados da insegurança de que o joelho pudesse falhar.
Esse receio começou cedo e se estendeu por mais de sete anos, até que um diagnóstico finalmente explicasse o que acontecia e uma cirurgia mudasse sua relação com a dança.
Mirella começou no balé ainda criança, aos 5 anos, incentivada pela tia, que também havia sido bailarina. A dança cresceu junto com ela, primeiro como descoberta, depois como paixão.
Hoje, a jovem bailarina integra uma companhia de dança, participa de competições e viagens, sempre por amor à arte. Mas, aos 12 anos, ela começou a perceber que havia algo errado.
“Meu joelho saía do lugar e voltava. Depois disso, vieram as dores, principalmente quando eu estava muito cansada”, lembra.
Com o tempo, surgiram os travamentos e a falta de confiança. Dobrar o joelho passou a ser motivo de ansiedade. Durante anos, ela dançou usando joelheira com o receio constante de se machucar novamente.
Diagnóstico após sete anos
Mesmo com exames e consultas, o problema seguia sem explicação. “Eu fazia ressonância, passava por médicos, mas nunca aparecia nada. Era muito frustrante saber que tinha algo errado e ninguém conseguir resolver”, relembra a jovem.
O diagnóstico só veio em 2025, quando ela precisou passar por uma cirurgia. Foi identificada uma lesão do tipo Ramp Lesion, um tipo específico de dano no menisco posterior que provoca instabilidade e costuma ser difícil de detectar nos exames tradicionais.
Lesão difícil de identificar
Segundo o ortopedista Jonatas Brito, da Universidade Federal do Ceará (UFC), responsável pelo caso, esse tipo de lesão muitas vezes passa despercebido e tende a evoluir quando não é tratado corretamente.
“Em pessoas jovens e ativas, o joelho costuma dar sinais antes de uma lesão mais grave aparecer nos exames. É preciso escutar esses sinais”, afirma
Foi a partir dessa leitura mais cuidadosa que Mirella se tornou uma das pacientes a se beneficiar de uma técnica desenvolvida pelo médico cearense, voltada à preservação do menisco e que propõe um caminho diferente do adotado por muitos anos na ortopedia.
Enquanto os procedimentos tradicionais costumam retirar parte do menisco lesionado, o método busca preservar e restaurar essa estrutura essencial para o funcionamento do joelho.
“O menisco funciona como um amortecedor. Ele distribui a carga, protege a cartilagem e ajuda na estabilidade. Retirar parte dele alivia a dor no curto prazo, mas aumenta o risco de desgaste no futuro”, explica Jonatas.
Preservar em vez de retirar
Na técnica aplicada em Mirella, a cirurgia começa com uma inspeção detalhada da articulação, inclusive em áreas que antes eram pouco exploradas. Ao identificar exatamente onde o menisco perdeu sua função, o foco passa a ser a restauração anatômica.
“Em vez de retirar tecido, recolocamos o menisco na posição correta, com a tensão adequada. É como consertar o amortecedor em vez de arrancá-lo”, diz Brito.
O método utiliza menos material cirúrgico, aumenta os pontos de fixação e oferece maior estabilidade ao joelho, reduzindo o risco de artrose ao longo do tempo. A técnica já vem sendo aplicada em outros países e recebeu reconhecimento científico.
Nem todos os pacientes, porém, são candidatos. O ortopedista destaca que a indicação correta é parte essencial do sucesso. “Quando o menisco está muito degenerado, preservar pode não trazer benefício. Cirurgia de qualidade começa pela escolha certa”, afirma.
Voltar aos palcos sem insegurança
Após a cirurgia, Mirella iniciou um processo cuidadoso de reabilitação. A fisioterapia começou cedo e, aos poucos, passou a incluir exercícios específicos do balé, com foco em força, equilíbrio e retomada gradual dos movimentos.
Cerca de três meses e meio depois, ela voltou a dançar respeitando os limites do corpo. Hoje, a sensação é de segurança.
“Me sinto 100%. Não tenho medo de fazer nenhum movimento. Meu professor diz que estou até mais forte do que antes”, conta. Para ela, a maior mudança foi emocional. “Agora sei que não tem mais nada de errado com o meu joelho. Posso dançar sem restrição nenhuma”.
Para Jonatas Brito, esse é o impacto mais importante do procedimento. “Preservar o menisco significa proteger o joelho ao longo da vida. Não estamos tratando só uma lesão, mas mudando a história desse joelho”, conclui.